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Trechos, textos e trecos

segunda-feira, abril 21, 2003



Dor de garganta. Gripe. A minha febre é existencial. Quando tudo vai bem e sobra tempo para pensar na vida parece que é ainda pior.
E amanhã? E depois? E mais tarde? O que vem?
Fora o susto que levo quando me dou conta do hoje de verdades que fui incapaz de prever.
Verdades que construo e que me constroem. Que doem na sua força de acontecer, em sua determinação urgente, sua impiedade, sua realidade avassaladora.
Como o vento que sopra e o tempo que vai. Como a respiração que acabou de acontecer, a que toma o lugar e a que a essa se segue.
Assim.
Sendo e impermanecendo.
Fluxo que só a morte irá parar. Ao que parece, diante do que conseguimos enxergar.
Mas lá, de onde não vêm notícias, que não venham preocupações. Que tudo aguarde, junto com o que ainda não existe (não aconteceu).


Que vida tola. É só isso? Um dia atrás do outro? Às vezes alguma emoção. Às vezes a falta dela.
O tempo vai acontecendo, sem que se consiga parar esse relógio. É esse relógio que um dia pára a gente.
Vai vida, vai indo que eu vou junto, um dia te levo, no outro você me carrega.
Cansaço de existir. Cansaço. Preguiça. Ou até medo. Mas quando é bom, ah, como vale a pena ser gente viva. Ser gente. Ser.
Meu conselho: viva. Não há mesmo outra coisa a se fazer.
E o futuro?
Ah, deixa pra amanhã, que o tempo se encarrega de trazê-lo. Faça seu hoje bem feito. E só; que isso já é coisa demais.


O meu mal foi ler Proust e achar que poderia ser poeta. Ou pelo menos surgir com alguma prosa que trouxesse alegria. Aquele consolo de que você não existe sozinho. E que as palavras são boas amigas. Acreditei nessa minha mentira inventada. E criei uma verdade nova.
Talvez eu não seja uma escritora. Talvez eu seja só uma neurótica que a psicanálise ainda não consertou para a vida. E que quando consertar, talvez acabe até com isso que eu penso ser, com modéstia, quase um talento. Porque é quando eu mais erro na vida que acerto nas frases.


Eu, que mal dou conta de mim, querendo escrever. E nessa insônia que me faz ver o dia clarear, aproveito a lista do supermercado, que já foi texto de trabalho e papel para minha filha desenhar, para fazer literatura.
Quanta bobagem. Será que penso que sou Clarice Lispector? Não. Sou mesmo Renata Xavier. E isso parece ser definitivo. Mergulho na minha pequenez, na minha singularidade, para lá buscar o que pode servir para me distrair da morte, que um dia chega.
E o papel acabou antes das idéias. Continuo escrevendo, como quem pensa ter algo em comum com Proust, Sêneca, Henry Müller, Jean Genet, Fernando Pessoa…
Peguei papel novo. Folha com linhas. Agora ficou mais difícil. Se ligar o computador, aí é que não sai mais nada.
Ia pensando, como se fosse inspiração, mas acho que era só transbordamento. O que é isso tudo?
É, acho que ser irrequieta ajuda nesse processo.
O texto flui mais difícil nesta parte. Ia melhor quando estava só na minha cabeça.
Eu o retomo depois, quando ele me retomar.


Ia pensando. Escrever é conversar sozinha. Não. É achar que tem alguém ouvindo e gostando da conversa. Se essa voz fala em mim, eu te coloco como testemunha desse delírio.
Boa parte do que valia a pena eu perdi. Não tive velocidade para anotar. Outra hora vem mais. Mas o que passou pela minha cabeça foi para o éter mesmo. Será que tenho que ser atleta dos meus pensamentos?
Por que não sou simples? Pra que tanta elucubração? É só a vida. E me lembrei do quadro de Chagall - A vida - , que só vi por acaso na televisão. Simples. Bonito mesmo. A mãe com a criança na rua cercada por pessoas comuns passando, o menino da bicicleta, a loja, a calçada. Ah, a vida é isso mesmo, Chagall. Lindo.
E a simpatia? O nome de um bloco carnavalesco aqui do Rio já explicou: “Simpatia é quase amor”. É o que sentimos num sorriso que se destaca, que revela a alma, que mostra Deus.
Não é só beleza.
Simpatia, gentileza, bondade, amizade. Isso tudo é mais.


Agora era tarde. O livro que um dia queria escrever já começou a ser escrito. Numa observação, num olhar que recebo, numa garrafa de club soda na estante errada do supermercado me lembrando de outra coisa (se não tiver preguiça, explico depois)*.
Já estou anotando a vida há tempos. Observo demais. Mas exercito também. Faz tempo que entendi que não basta estar viva, tenho que participar. Hum… Melhores frases virão, prometo.



Que importa a chuva lá fora, se dentro de mim faz sol? Que me importa o sol, se chove dentro de mim?


Às vezes esqueço que sou menina e olho o mundo com retinas masculinas. Leio pensamentos de quem me olha como se perguntasse quem eu sou. Também não sei. Mas sei que posso ser menino às vezes, nas minhas idéias, pensando sem os limites impostos pelo sexo que já nos enganou que era o mais forte por tempo demais. Forte somos nós, mulheres, que conseguimos chegar até aqui debaixo de tanta repressão.
Seres humanos são almas. E almas não têm sexo. Pelo menos não para justificar o que fazem contra seus iguais e seus desiguais.


Às vezes sou homem
Homem sensível
Inteligente
E inspirado

Homem gentil,
Atento,
Enamorado

Homem que não se percebe um falo
E entende que
Àquelas que faltam pênis pode
Sobrar talento para a vida.

Um homem meio gauche,
Muito amigo,
Um pouco indeciso,
Nada convencido

Um homem que é mulher no coração

Mas meu corpo gosta do meu oposto,
Mesmo que suas idéias tentem piorá-lo.
Acontece de homem ser coisa muito boa.

* Aquela garrafa de club soda na seção errada do supermercado falava comigo. Ela me fez lembrar da primeira vez que experimentei a bebida na casa do homem que costumava amar e não senti prazer muito maior do que beber água extremamente gasosa. Mas me fiz parecer deliciada com a experiência. O sexo era bom, intenso, prolongado, suado, molhado, tenro, quase excessivo, melhor que muitos, o melhor até então, porque quando se trata de sexo, depois de se conhecer a proficiência, não se deve brincar com amadores.
Mas o club soda não tinha nada com isso, afinal. E a vida seguia, como acontece até que a morte a interrompa. E hoje vejo que aquela lembrança que me atropelou no supermercado foi só a vida falando comigo nas suas entrelinhas, um momento instantaneamente mágico que consegui captar.
Às vezes melhor que a experiência em si é a lembrança que fica dela, e é na qualidade dessa lembrança que o que foi vivido parece se justificar.

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