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Trechos, textos e trecos

segunda-feira, abril 21, 2003

Declaração de paz aos homens

A mulher estava verborrágica. Hemorrágica também, mas isso é detalhe. Sentou à frente do computador e começou a dedilhar aquelas letras feito louca. As mãos não conseguiam acompanhar a velocidade do seu pensamento. As palavras iriam escapar a qualquer momento. E ela em alta velocidade, indo atrás delas ainda sem saber como a frase terminaria. E se fariam sentido pra alguma coisa.
Às vezes era assim que ela escrevia, possuída por súbita inspiração. O telefone tinha acabado de tocar e era um amigo com o qual ela já estava combinando de fazer uma tatuagem há algum tempo. Os dois já eram maduros, mais de 30, ela; mais de 40, ele. Mas - por que “mas”? - queriam fazer o que bem entendessem. E a maturidade serve pra isso também.
Pode-se fazer o que bem se entender. É só se arrepender depois se alguma coisa sair errado; mas, deixar de fazer? Por quê? Não, vamos ver como é que é. Tudo. Tudo.
Claro que seus princípios faziam dela uma pessoa do bem, o tudo que ela queria conhecer é o tudo do bem. Mas de que bem falamos? Do bem da Igreja? Da religião? Da filosofia? Da psicanálise?
Em algum lugar deve haver como responder a isso da maneira mais breve possível, pra ela continuar sua história. Mas seu bom senso não a levaria à trilha do mal, isso era certo. Sem moralismos. Sem imoralidade. Amoralmente falando.

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A sua observação da vida, em especial da conduta masculina, veio mexendo com a cabeça dela nos últimos tempos. A antipática frase “o mundo é dos homens” começava a fazer sentido. Não que ela concordasse com essa história, mas sim porque se o mundo era mesmo dos homens é porque as mulheres assim permitiam. Sem essa de querer confronto. Mas o mundo poderia ser dos homens e das mulheres, como realmente é. Só que muitas mulheres vivem uma vida pequena, sem participar do mundo. As mulheres são mesmo seres de outra categoria. E quando conseguem ver espaço no mundo em que vivem e quando percebem que não é um espaço a ser conquistado, mas sim utilizado, se surpreendem com o tamanho que a vida pode ter. E, nessa hora, a mulher consegue ver além do universo masculino, com seus próprios olhos, e entende que o jeito masculino de ser é conseqüência de quem está em todos os setores da vida, não só dentro de casa ou dentro de uma relação monogâmica (porque poucas são. Se é que existe uma 100% monogâmica, incluindo presente, passado e futuro).
Os homens circulam pela vida pública e privada com a maior sem-cerimônia. Mas, olhando de perto, a maioria não tem esse jogo de cintura todo, não. Se você se aproxima de um deles com uma conversa assexuada, um tratamento de igual pra igual, como quem apenas se dirige a um companheiro de vida terráquea - sabe como? - , sem intenção nenhuma, sem caras e bocas, o cara fica meio sem jeito. Eles se vêem em um papel de “camarada”, de brother, diante de uma mulher. Mas depois da surpresa, se abrem, conversam. É, eles têm essa virtude. Sabem se adaptar, assumir vários papéis. Ser um amigo deles, é isso o que a mulher precisa aprender. A mulher precisa aprender a ser amigO do homem. E aí vai entender que a vida pode ser fácil, que pornografia não é violência contra nós e pode ser muito divertida quando partilhada, vivenciada ou apenas aceita como “coisa de homem” , como o garotinho que brinca com seu carrinho de lata, sua pipa. A pornografia substitui a intensidade e o carinho que nem sempre existem nas relações. Porque “só sexo” também pode ser bom. Mas a mulher vai sempre buscar mais envolvimento, mais cumplicidade, querer saber se aquele desejo e aquele tesão todo não escondem um amor verdadeiro …
E que ela não se assuste ao descobrir que era só aquilo mesmo. E que aquilo tudo não é pouco. E que há algo de sublime naquela luxúria toda. Os homens é que são meio desajeitados pra enxergar. Só isso. Paciência com eles. Cada um vive seu prazer do jeito que consegue.

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