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Trechos, textos e trecos
quarta-feira, novembro 13, 2002
Queria estar pronta para um romance. Para escrever um. Tenho até idéias, mas elas não formam uma história. São algumas frases, algumas impressões, pequenos monólogos, quase-ensaios. Mas juntas não são nada além de pedaços, ou pequenos inteiros que ainda não foram nomeados pela literatura. São como trailllers de um filme ainda não rodado, nem escrito. São chamadas de capa, títulos, olhos de uma matéria que a imprensa ainda não publicou. Algumas respostas a perguntas que não foram feitas por nenhum repórter. Algumas frases esperando a hora de ser usadas. Uma coleção de possibilidades aguardando sua vez…
Mas o importante é que continuo produzindo. Talvez se me juntasse com outra pessoa que gostasse de escrever… Ou que não gostasse, mas que pudesse me ajudar de alguma forma. Um personal trainer das idéias, das palavras, do texto… Sei lá. Aliás, acho que isso é vício de quem trabalha muito com as idéias dos outros, fazendo locução de textos alheios e revisando e editando matérias para uma revista de publicação dirigida… Penteio os textos, mexo aqui ou ali, dou voz a eles, mas o que é contado não é escolha minha.
Às vezes estou mais ligada nas idéias, às vezes na maneira de contá-las. Alterno minha atenção entre conteúdo e forma, priorizando ora um ora outro. Poucas vezes combinei os dois com sucesso… Mas foram poucas vezes de muito valor. Não busco quantidade. Sei que estou a caminho de algo maior, mais raro, uma conversa mais profunda, em que o estilo não tenha mais importância do que o que é dito, porque o que é dito por si só ocupa toda a atenção. Não quero palavras a mais, nem similares às que seriam ideais. Tenho que estar atenta ao conteúdo, que as palavras vêm. O que sinto é que o bom texto já nasce com as palavras certas, são as palavras que fazem dele um bom texto afinal, mas a habilidade em reuni-las não pode ser simulada. Pode-se melhorar o que é bom, mas inventar o bom a partir do nada parece impossível. Que venha a idéia, com seu texto e aí, depois de colados no papel, é hora de cortar o que sobra, trocar o que veio truncado. Mas já está quase tudo lá.
Bons autores já falaram que o bom texto não precisa ser muito mexido. Fernando Pessoa dizia sentir pena de quem tem que fazer poesia como um carpinteiro que trabalha a madeira para dela tirar a forma. João Cabral de Mello Neto disse o oposto, que escrevia, lia, relia e reescrevia várias vezes. Um de seus livros mais famosos foi escrito em nove anos, sempre com sacrifício, escolhendo as palavras, trocando linhas de lugar… Carpintaria.
Pelo que pude apreender, o resultado é o que importa. Alguns funcionam melhor espontaneamente, outros têm que trabalhar um pouco mais. Eu oscilo entre as duas maneiras… Mas sinto que é melhor quando o texto sai de mim como que psicografado. Palavras que não uso a toda hora, idéias obscuras ou esclarecedoras que não eram minhas até o minuto anterior… Mágica mesmo. Só quem já passou por isso sabe como é. Não é inspiração, é transbordamento.
E essas idéias às vezes vêm em horas que não tenho como anotá-las. Tento deixar uma lembrança para trabalhar mais tarde sobre o que intuí, mas na hora de retomar, não flui do mesmo jeito. E às vezes o texto vem pronto, mas muito veloz e não consigo digitá-lo, nem falá-lo… É quase assim
No mais acho que não disse nenhuma novidade. Foi mesmo um desabafo sobre o bom e o ruim de quem pretende escrever. Mas vale a pena de alguma forma. Nem que valha só para mim. É uma maneira de fazer alguma coisa com o que eu penso. Um jeito de por pra fora o que me faz ser quem eu sou. Uma conversa diferente comigo mesma.
Melhor do que escrever só ler um texto bem escrito. E se o conteúdo me alimentar a alma, melhor ainda.
P.S.: Sobre estar pronta para um romance, Marina Colasanti em entrevista a uma amiga minha disse que o romance não é o topo. Não há uma hierarquia entre os estilos, há os que fazem melhor poesia, outros são feras do conto, do ensaio; o romance não é para todos que escrevem. Cada escritor tem sua linguagem… Ela, pessoalmente, não pensa em escrever um romance e está feliz com o que vem criando.
Se ao menos eu pudesse definir o meu estilo… Aforismos? Pedindo licença a Schoppenhauer...